Ok. Aqui vai a fic, não tive tempo de revisá-la… Anyway, here it go.

~~Despair Rain~~

A estrada estava deserta. Naquele lugar quase que inóspito, Shion movia-se furtivamente entre a mata temendo ser pego novamente. Nezumi não o perdoaria, afinal. Sentia falta de seu conforto, dos braços acolhedores de sua mãe, e de sua rotina convencional.

“Considere-se meu inimigo agora.”

As palavras de Nezumi fizeram-se presentes e ainda ecoavam na cabeça dele. Ele havia escolhido voltar para a No. 6, mesmo temendo ser punido. Preocupações vindo a mil quilômetros por hora, Shion sentia-se o pior ser humano na face daquela terra maldita. Nezumi havia salvo sua vida, e ele em recompensa, o abandonou.

- E no horizonte não tão distante de mim, eu consegui enxergar os grandes holofotes que iluminavam a noite na No. 6. Não demorou muito para que os guardas avistassem-me, algemassem-me e enjaulassem-me novamente. Durante todo o trajeto, não disse uma palavra, Nezumi assombrava-me a cada momento, culpando-me por deixá-lo. Os soldados interrogaram-me e examinaram meu corpo. Com uma fajuta desculpa de amnésia após sobreviver ao ataque do parasita, agora controlado, eu consegui escapar sem ser gravemente punido. Fui liberado assim que os exames ficaram prontos. Como se obteve apenas a solução em matar os hospedeiros, o diagnóstico da infecção não fora estudado, ainda. Colocaram novamente a pulseira em mim, juntamente com um chip, para que se mantivessem informados, desde a cada enzima de meu corpo liberada, até a freqüência dos meus batimentos arrítmicos. Ainda lembrava do caminho de casa. Após anos de convivência com Nezumi, havia adquirido de certa forma algum conhecimento sobre as distorcidas coordenadas da No. 6. Eu ainda estava enjoado, abatido e de fato, irritado. Ainda que a euforia tomasse conta de mim, em estar a poucos metros de minha antiga residência, eu não parava de me culpar em deixá-lo. Eu amava a companhia dele, no final das contas. Seu jeito frio e ranzinza, havia sido pouco a pouco quebrado pela minha insistência, eu suponho. – Deixei-me rir um pouco. – Jamais conseguirei esquece-lo. Era um fato que eu não poderia negar. Repentinamente ele havia entrado em minha vida, ocupando espaço com sua impertinência, e enterrando sua bondade um tanto quanto peculiar dentro de mim. Eu o adorava. E me aborrecia a verdade que parecia querer gritar a todo instante para Nezumi o quanto eu prezava pela sua existência. E o quanto eu era grato a ele. E o quão assustador era meu distorcido sentimento… E o quão vergonhoso meus olhos pareciam agora. Completamente úmidos. –

Shion tentara abrir a porta e até mesmo bater, mas fora em vão, a casa parecia estar vazia, sua mãe provavelmente não havia retornado ainda. Checou o esconderijo de sempre, o quarto vaso de orquídeas na parte superior nas janelas frontais. E lá estava, o micro cartão, usado para a abertura das portas da casa. Digitou a senha no pequeno visor e sorriu.

__Ela não se esqueceu de mim, enfim.

A senha era a data de nascimento de Shion, escolhida após muita discussão entre ele e sua amiga de infância, Safu, agora provavelmente aguardando apenas a conclusão de seus estudos de neurociência. Após todo esse tempo fora, Shion recuperava aos poucos os sentidos, as lembranças que tivera naquela casa, todas elas regadas à nostalgia. Deixou-se cair no sofá, colocando o antebraço sobre o rosto. Ainda estava enjoado. Após a rigorosa série de exames, ainda estava mal. Fisicamente e psicologicamente. Foi tomado pelo mal-estar e caiu no sono. Foi acordado apenas pelo som emitido pela porta, após alguns minutos. Era sua mãe. Ela correu em direção à ele, em prantos. Após longas horas, contando sobre suas desventuras sempre acompanhado de Nezumi, Shion percebe que ela adormecia silenciosamente sob o braço da confortável poltrona.

__Está cansada, afinal. – Disse baixando o olhar.

- Eu a cobri com um aconchegante cobertor e desliguei as luzes da sala. Subi até meu quarto. O cômodo estava impecavelmente intacto, tudo estava do jeito que deixei, há dois anos atrás. Caí de joelhos. A pressão era insuportavelmente grande para que eu pudesse suportar. Meu coração doía, minha cabeça latejava com aquela vontade estúpida de chorar. Depois de tudo, depois de tudo que eu havia renunciado. A única razão, eu me sentia atraído por ele. Olhar-me no espelho e ele encontrar. A verdade era: Eu não consegui ficar sequer algumas horas longe de Nezumi. –

Shion despertava aos poucos, as pupilas piscavam hesitantes em direção ao que o incomodava. A janela entreaberta, fazia com que os raios do sol entrassem e caminhassem até seus olhos. E assim foi, mês após mês, Shion apresentava os relatórios de seus exames semanais, ajudava a mãe na confeitaria e lamentava ainda mais a ausência de Nezumi.

- Após meses, eu não obtive sequer um sinal de que Nezumi estava vivo. Eu fui inúmeras vezes até a fronteira entre a No. 6 e a floresta. Algumas vezes fui pego, outras escapei, e muitas delas apenas voltei para casa, com vergonha de mim mesmo, por ainda desejar tanto ver seu rosto. Por que eu ainda insistia? Durante todo esse tempo eu não consegui desvencilhar meus pensamentos dele. Não era mútuo, infelizmente. Nezumi não sentia minha falta. E se o fizesse, nem sequer demonstrou. Não havia nada de diferente em sua forma de me tratar, como a guarda-cães havia dito.

O relógio marcava duas da madrugada. E depois de noites sem conseguir dormir, foi acordado por barulhos que vinham dos céus. Chovia torrencialmente e parecia não ter fim, os relâmpagos riscavam o firmamento, seguidos pelo som forte dos trovões. Levantou-se e decidiu rumar em direção à varanda, assim como a primeira vez que seu olhar encontrou o de Nezumi. Ele abriu as portas de vidro e o viu. Não era possível. Piscou seus olhos por contínuas vezes, incrédulo. Seu cabelo estava colado em seu rosto, e as gotas pingavam sem parar de suas roupas.

__Ne… Zumi. – Sussurrou.

__Posso entrar? – Disse, sorrindo calmamente, já entrando, não esperando a resposta de Shion.

Ele rapidamente fechou as portas, interrompendo a fúria dos ventos. Observou-o retirar sua jaqueta, e o pedaço de tecido usado para cobrir-lhe o pescoço. Nezumi jogou suas coisas sobre a cama de Shion, deixando cair um livro que insistentemente segurava, agora, encharcado ao extremo. Sentou-se, olhando rapidamente para ele, congelando-o. Shion caminhou até ele, confuso e vacilante. Ergueu uma de suas mãos, tentando tirar a água da chuva que teimava em escorrer pelo seu rosto. Nezumi friamente interrompe o toque de Shion com um tapa, assustando-o.

__Não toque em mim. – Disse rudemente, pegando o livro e secando-o junto aos lençóis.

Shion afastou-se, temeroso, decidindo sentar no chão. Após longos minutos de um infindável silêncio, Nezumi folheia algumas páginas do livro e finalmente se pronuncia.

__ “Quem conhece além de mim a doçura, a loucura, o êxtase fremente, carnal, ideal, sobre-humano dessas carícias; e esses beijos na carne rósea, na carne vermelha, na carne branca, miraculosamente diferente, delicada, rara, fina, untuosa das admiráveis flores?”

Shion fitava Nezumi, com uma notável coloração rósea nas maçãs do rosto.

__Não entendi, Nezu-Sama. – Desviando seu olhar.

Ele sorriu e fez sinal para que Shion sentasse ao lado dele. Levantou-se do chão, acomodando-se ao seu lado.

__Você deveria ter me procurado.

__Perdoe-me Nezumi.

- Nezumi parecia desejar algo do meu olhar. E eu insistia em fugir dos olhos dele. –

Nezumi se aproxima um pouco mais de Shion, fazendo-o fechar os olhos; e os punhos em seus ombros, devido ao toque de sua pele ainda gelada.

__Você, antes de qualquer um deveria saber interpretar o que diz um livro, Shion.

Ele parecia não entender, ou fingia não entender. Shion corava cada vez mais, conseqüência a doce e fina camada de ar que os separava. Nezumi toca o rosto de Shion, chamando-o.

__Shion. – Sussurrava.

A delicada camada fora quebrada. Nezumi finalmente pôde sentir a doce textura dos lábios de Shion.

__Ne… Zumi. – Tentava dizer, gaguejando, entre os lábios dele.

Os olhos de Shion novamente encontravam-se úmidos, e Nezumi os fitava.

__Eu sei que foi até a fronteira.

__O que disse? – Indagou envergonhado.

 

__Sei que foi me procurar. Eu o vi. Por que causa não adentrou a mata até encontrar-me? – Nezumi sussurrava, agarrando-se às roupas de Shion.

__Não conseguiria encarar-te. Não depois de ter lhe abandonado.

Nezumi, num acesso de raiva, joga Shion sobre a cama, provocando um gemido de dor do menor ao bater suas costas no colchão.

__Maldito seja, Shion. Maldita seja essa sua péssima mania de testar minha paciência. – Disse apertando levemente seu pescoço, enquanto se posicionava entre suas pernas.

Shion não conseguia encarar novamente os olhos de Nezumi. Fechou fortemente os olhos, sentindo Nezumi aos poucos se aproximar mais uma vez. Ele decidiu adentrar as mãos nas roupas de Shion, enquanto sentia o doce néctar que a pele dele emanava.

__Nezu… Mi. – Gemia baixinho.

Ele intensificava suas carícias, não contendo-se em menores pudores. As mãos de Shion seguravam a camisa de Nezumi, trêmulas. Seus gemidos foram interrompidos pelo bip irritante emitido pelo objeto preso ao pulso de Shion. Ele tentava se separar dos braços de Nezumi, empurrando-o com suas mãos fracas. – Arritmia cardíaca – apontava o visor.

__Nezumi. Nezu… Mi! – Gemia. – Eles virão atrás de nós! Pare agora mesmo!

 Tentava fazer com que ele o soltasse, temendo os soldados que viriam sem titubear atrás de Shion após o alerta. Mas não conseguia. Os fortes braços de Nezumi o envolveram, fazendo com que seus corpos não se afastassem. O suave toque dele deixava Shion extasiado, seus gemidos ecoavam por todo o cômodo, demonstrando o quanto queria mais. Muito mais. Entre sua respiração descompassada, ele lutava contra seus próprios desejos, tentando fazer com que Nezumi desistisse daquela idéia absurda, primando por sua própria vida.

__Nezumi! Nezumi, pare… Isso é errado! Eles virão atrás de nós… – Sussurrava, entre os gemidos e a respiração irregular.

__Cale-se. – Disse em tom baixo, lambendo os lábios de Shion enquanto segurava seu pescoço novamente. – Esqueça seus pudores, seus medos e seus questionamentos morais. Aqui não há lugar para eles.

- Ele tomou meu pulso e quebrou a pulseira com uma de suas mãos, fazendo com que o silêncio nos engolisse de novo, enquanto segurava meu outro braço com a mão esquerda, pressionando-a contra a cabeceira da cama. Meu desejo era eminente, eu não conseguia mais negar. E ele notou quando retirou minhas vestes. Sem dizer mais nada, avançou sobre meu corpo. Aquele sentimento sedante fazia com que cada vez mais eu quisesse marcá-lo com minha essência, até seus ossos. Anestesiá-lo e enlouquecê-lo, pouco a pouco.  Foi assim… Eu apenas percebi que ele não se importava com a solidão. Isso me deixava irritado, de alguma forma, queria forçá-lo a olhar para mim. E ele agia… Como se não tivesse culpa de nada. Fingia estar bem sozinho. Distribuía sua indiferença. Me fez desejar consumir seu corpo inteiro… cada célula, envolvendo-o, preenchendo-o com o cheiro do meu corpo. Até sufocá-lo com a minha essência. Esses sentimentos… Estes desejos. Seria esse o sussurro do amor dentro de mim? A pele que se arrepiava toda vez que seu olhar se entrelaçava ao meu. Nezumi possuiu-me com furor, ora provocava-me, ora aquietava-me com suas carícias. Emaranhando os delicados fios de meus cabelos entre seus dedos. Minhas costas arqueavam-se, meu corpo moldava-se ao dele, arrancando-lhe os mesmos gemidos que os meus. Após ter chegado ao seu limite, movimentou-se fortemente, fazendo-me atingir o ápice, ecoando aos cantos do salão o grande gemido de alívio e prazer, abafado apenas pelo barulho da chuva, fechando suas mãos em meu rosto, até adormecer ao meu lado. –

Nezumi desapareceu na manhã seguinte, deixando um bilhete com a promessa de que voltaria todas as noites. Minha pulseira foi restaurada por uma das instituições na No. 6, com mais uma das inacreditáveis desculpas que Nezumi inventava. Era mesmo um rato, afinal.

- Eu apenas fui me deixando levar facilmente. Era a única coisa que me foi dada de propósito após eu perceber que havia perdido algo tão precioso por um bom tempo. Tenho ciência de que não mereço coisa alguma. Quero acreditar que Nezumi poderia sentir-me onde quer que ele estivesse. Eu me deixei ser abraçado por mais que eu não pudesse. Eu deixei com que aquele sentimento crescesse dentro de mim mesmo tomando ciência do quão distorcido era. Eu me deixei levar mesmo sabendo o quanto egoísta aquilo era. Eu me deixei ser livre. Nezumi concedeu-me liberdade. –

~ The End ~

- Agradeço desde já você, Sam. Sem você essa fic não teria saido. *¬*~

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