“ Perdas são irreparáveis, e a minha perda de ânimo, de decência, foi-se. Que me perdoem os fracos, mas só cai quem voa – costumo dizer. E eu caí: um tombo feio, de arrebentar os joelhos e ralar a testa toda. Lições da vida, que são inevitáveis. Mas que se aprende. Aí eu finjo – eu gosto de fingir, não me julgue – que no próximo ano, tudo será diferente. Vou emagrecer. Importar-me-ei menos – não ligarei para números que não me ofereçam respostas. Voltarei a estudar, e escrever meus textos patéticos. Marcarei o calendário com promessas e projetos que provavelmente eu não vou conseguir cumprir. Mas, eu não tenho nada a perder, vou viver a mil, e se alguém tiver dúvidas, farei melhor – e mais um pouco. Acordarei no meio da tarde, de ressaca, sozinha em casa, sozinha no mundo. Vai doer tanto. Mas não quero me poupar dessas futuras amarguras dilaceradas. ” ©
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Casacos de lã parte III - 03/02/2012
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“ Contei nos dedos das mãos e dos pés, como quem conta carneirinhos antes de cair no sono, quantos dias faltariam para que esse meu cansaço enfim terminasse. Aquele cansaço, o qual nem ao menos calmantes empurrados goela abaixo seguido de noites de sono forçadas o aniquilaria. O comodismo ronda minha mente, e às vezes, só às vezes, os quatro cavaleiros do apocalipse juntos roçam os lábios pela minha pele, e arrancam todo o meu ânimo. Tantas vezes eu quis desistir dessa contagem regressiva besta. Senti vontades absurdas, como pegar um ônibus para algum lugar desconhecido, onde só eu mesma me conhecesse. Ou nem isso. Visitar meu irmão de alma, trocar idéias, rir sobre besteiras, ver o movimento das ruas, tomar cerveja, ou mesmo sorvete de chocolate. Torcer para que ele note meu desespero, compadeça de mim e me acolha com casacos de lã e pastéis agridoces, comprados às pressas na confeitaria da esquina. Que ele me abrace e compartilhe o silêncio, interrompido apenas por um choro baixinho, contido. E que ele seque minhas lágrimas. Incontáveis, que se escorrem queixo abaixo. Sem dizer nada. “
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Casacos de lã ©
~04:06 AM~
Estávamos dentro do meu carro. Eu dirigi até o litoral, após ela me pedir em meio a lágrimas. O horizonte ofuscado iluminado apenas pelos faróis do veículo, nos engolia dentro do silêncio infindável. Ela suspirou e virou-se em direção da janela.
__Sempre diz não, mas nunca se defende… Pode fazer se acha que está sendo forçado. Talvez seja isso um ‘’sim’’ disfarçado? Mas não deixarei que me engane. Por favor, não acredite que será tão fácil, onde você esta agora é difícil chegar onde eu me encontro. Você acha que ficarei satisfeita em fechar os olhos e só tocar sua mão?
__Você me trata bem… É por isso que faço o que posso em retorno. De forma que possa me igualar a você.
__Igualar? Por acaso a aranha é igual ao inseto preso em sua teia? - Sou como uma mariposa que voou para sua teia por espontânea vontade. Sonho com o dia em que você me devorará. Mas você só faz me dar o doce néctar que me mantém viva. – Então, um dia uma adorável borboleta cai em sua teia. E, bem diante dos meus olhos, você a devora com satisfação. Quando eu presenciar por mim mesma, finalmente poderei me libertar. Até lá, estarei me fazendo em pedaços, mas não tem problema… Na verdade, se essa é a verdadeira razão pela qual você estava sendo gentil comigo, então estou num ponto onde não há salvação.
__Quando eu disse ‘’igualar’’, quis dizer que desejo ter sentimentos que se comparem aos seus.
__Eu não suporto sua indecisão e seus conflitos. Mas você me aceita com tolerância máxima. Nossa química física é ótima… Você é gentil, e eu sou teimosa. Mas se fossemos um casal normal… Poderia ter aproveitado isso por mais tempo. Teria sido firme e feito você se casar comigo. Também poderia ter conhecido seus pais abertamente. Eu largaria meu emprego e passaria o dia todo cuidando de duas necessidades em casa. Teria dois ou três filhos e também seria bem ativa na Associação de pais & mestres e esse tipo de coisa. Nós discutiríamos e nos cansaríamos um do outro à medida que envelhecêssemos. Estaria ao seu lado quando você morresse, dizendo: “Logo vou também, então não tenha um caso com um anjo.”. Mas isso nunca irá acontecer… Nós nunca iríamos dar certo, só precisávamos de uma desculpa, qualquer coisa serviria.
__Pare com isso. Com essa retrospectiva besta e desnecessária.
__Mas você é um bom homem. Vou lhe dizer quão bom você é, lembre-se disso. – sorriu. – Você é, e sempre foi uma pessoa amável. Não importa se é homem ou mulher, de boa aparência ou não… Você é igualmente gentil com todos. Além do mais, gosto do seu rosto… Simples, mas nobre. E sua pele clara, quando você veste camisas azul-claras, me faz perder a cabeça. Mas acho que do que mais me arrependerei será de ter desistido do seu corpo. Fiquei sem reação quando foi viril e sádico na cama. Mas você realmente pensou que poderia me possuir como possuiria uma mulher normal e eu ronronaria em obediência?
__Cale-se.
__Mesmo que seja indeciso na vida privada, desempenha um bom trabalho em sua profissão, você tem talento para sondar os sentimentos das pessoas e é sensível com os outros. Sabe escutar os demais e é alguém fácil de conversar. Eu me sentia à vontade, não se importava se estivéssemos em silêncio ou não… Mesmo as coisas mais insignificantes, como quando comíamos juntos, as refeições se tornavam mais saborosas. E eu ficava realmente muito feliz em dormir ao seu lado… Eu me sentia bem, só de estar com você. Esse é o tipo de pessoa que você é. O que aconteceu entre nós não é grande coisa. Você teve um curto sonho… No momento mais escuro da sua vida. Quando o amanhecer chegar, estará vivendo no seu mundo novamente… As criaturas noturnas desaparecerão. Eu estive devorando sua existência atual… Nunca fui capaz de fazê-lo feliz. Eu perdi nesse jogo. Vou simplesmente retornar à floresta sombria, eu me cansei, afinal. O sol está nascendo. Diga algo também. – Virou-se para ele.
__Dizer algo… Desculpe-me. Sou muito agradecido. Eu realmente te amei.
__Gostaria que houvesse dois de você.
__Se pudesse me dividir em dois eu o faria.
__Nós dividiremos em duas partes iguais, a partir da sua cabeça.
__Você gosta da direita?
__Sim, porque você é destro. – sorriu.
__…
Diferente da nossa viagem de ida, não trocamos sequer uma palavra um com o outro no caminho de volta. Quando chegamos ao meu apartamento, ela rapidamente recolheu suas coisas. Despediu-se ligeiramente e foi embora. Mesmo que ela estivesse praticamente morando comigo, quase não tinha bagagem. Isso me surpreendeu. Percebi que não importava quanto tempo tivéssemos passado juntos, ela sempre pensou que isso aconteceria, e nunca firmou raízes.
Ela provavelmente me colocaria pra fora da vida dela algum dia… Mais cedo ou mais tarde. Cansar-se-ia e me largaria de vez. Eu contemplei, emudecido, uma vida que não tinha mais nada. Eu a observei indo embora, reconhecendo que meu amor morreu. Adornei a estrada da morte com flores, já que era tudo que eu poderia fazer.
Se isso foi amor, que eu não ame novamente. O amor é um castigo divino.
Olhei para o relógio na cabeceira, quatro e seis. A madrugada despejava em mim o frio que me cortava o rosto. E eu ainda não estava com sono.
“Mas também gosto do seu lado esquerdo.” – Ela disse naquele dia.
S. Schiffer
Quatro de junho de 2011.
(Tributo ao mangá que mais gostei ever º¬º~)
Ela faz testes. Ela é desconfiada e quer saber até onde as pessoas iriam por ela. Ela deseja uma pessoa que viva 100% à sua disposição, sem hesitar, e que insista mesmo quando ela diz que está tudo bem. E que não desista em lhe explicar coisas que nem mesmo ela entende. Ela era forte. E ser forte significava que ela se tornava arrogante e egoísta. Mesmo que nunca tivesse desejado isso. Mas ela precisava, Ela precisava de alguém. Alguém que a entendesse, que a tomasse sem motivos ou explicações. Que a excitasse sem se importar com lugar, hora ou meios para tal. Que se casassem em pensamento, enquanto esperavam o sono durante a noite. Que a devorasse em devaneios, e que fosse um espírito obsessivo procurando por atenção.
Ele tem uma imensa capacidade de se adaptar… Todo o tempo estima ser tudo aquilo que precisam… Sem se importar em expor seu próprio corpo ao perigo, a dor ou até mesmo a morte… Seria capaz de matar e morrer por quem ama… E também é capaz de amar alguém, mesmo se esta pessoa nem menos merecer… Não julga os outros ou situações… Mas se perde ao julgar a si mesmo, muitas das vezes precipitando-se demais… Jamais desiste de alguém… Mesmo que este alguém o receba com pedras, e suas palavras venham até ele como facas… …Jamais perde a capacidade de amar… E mesmo ferido… Ainda encontra forças para carregar os que se encontravam estirados no caminho… Muitas vezes sorri… Mas era verdadeiro apenas… Quando sorria com os olhos.
Ela desejava estar sob seu feitiço, se submetendo e entregando cada parte do seu corpo em direção ao abismo em que ele se encontrava a qualquer parte do dia. Ela imaginava o que sentiria ao vê-lo sendo torturado tão docemente. E mal conseguia respirar. Ela se perdia completamente e tão pouco se importava. Ela esperava a chuva cair, e derramar a vida real sobre ela. E se ele for até o fim, terá que submeter-se a ela. Essa não seria uma escolha dele, mas dela.
__Se esqueceu de que me adapto sem dificuldades? Eu nem ao menos precisaria me esforçar para isso. É o que me faz feliz. É o que me move.
Ele não via esta atitude como submissão. E sim como um investimento. Uma forma de alimentar a felicidade dela. Para que ele também possa vir a ser feliz. É uma troca. Onde ela pensa… Que somente ela é a beneficiada. Quando na verdade… Ambos estão se beneficiando.
__Eu poderia correr para sempre. Mas até onde eu teria chegado sem lamentar por essa loucura que alimento?
Ela estava louca. Ele tinha que se submeter a ela, não era uma opção. Que ele encarasse aquilo como uma ordem e reconhecesse seu maldito lugar. Não era uma questão de ambos terem suas vontades e se privilegiassem por conta própria. Ele deveria se sentir feliz apenas pelo fato de aceitar as vontades dela. No fundo ela sabia. Conhecia sua realidade e não mentiria para si mesma. Ela nasceu para morrer sozinha. Ela ousou dizer que o amava, enquanto ela esperava pelo último trem. Ela esperou, pois queria lhe dizer que no final das contas se apaixonou pelo seu jeito. Ela esperou e acabou andando na chuva até sua casa. Esperou pra ver o quão longe ele iria por ela, se ele diria que sentia o mesmo. Por que ela ainda sentia-se desconfortável? Aquilo era de se esperar.
Ela não se importava. Ou fingia não se importar. Ela tinha uma queda particular por fins trágicos. Então ela encontrou uma saída. Para que ele nunca mais a machucasse novamente.
S.Schiffer & L.Leal, em parceria
Criado em cinco de junho de 2011.

